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Especial Coronavírus: Entrevista com o especialista chefe da área de pneumologia no HRAN, hospital

Especial Coronavírus: Entrevista com Dr Paulo Feitosa especialista chefe da área de pneumologia no HRAN, hospital que está recebendo pacientes de COVID-19 em Brasília

SW- O senhor acha que o SUS DF está preparado para um eventual aumento da demanda de casos?

Não acho que o SUS esteja preparado para um desastre sanitário que o Coronavírus possa fazer. Nós temos um SUS com grandes deficiência financeira, assim como em todos os seus níveis. Na atenção, primária, secundária e terciária. O número de leitos, hoje, no SUS, é insuficiente. Mas é bom lembrar que nenhum país, até os mais ricos, estão preparados para uma tragédia sanitária como essa. Se formos atingidos como foi a Itália, aí, sim, teremos uma tragédia de porte inimaginável. Enfermarias vão virar UTI, teremos quase um campo de guerra de medicina intensiva. Esperamos que não aconteça, que o tropicalismo (clima quente) defenda o Brasil.

SW- Em que momento da curva nós nos encontramos nesse momento?

Nós estamos no crescimento da curva. Começamos a ter no Brasil casos de transmissão comunitária, ou seja, de pessoas que não importaram a doença para o País, voltando do exterior. Com a transmissão comunitária a gente perde totalmente os dados, não se consegue identificar com clareza onde estão os riscos e todo paciente sintomático passa a ser risco. E mais: crianças e jovens podem até não ter sintomas e transmitirem a doença. O momento é de extrema preocupação com os idosos, que podem ser afetados pela forma grave da doença, que é a pneumonia viral, grande causa da morte do novo coronavirus. Quem tem doenças do coração, diabetes e doenças pulmonares crônicas precisam estar muito mais alertas às questões de prevenção.

SW- As temperaturas quentes do Brasil podem nos favorecer?

Os vírus de disseminação respiratória se propagam melhor em ambientes frios. Tudo começou no hemisfério norte, em países frios. Existe a possibilidade de haver um nível de infecção menor em lugares próximos à linha do Equador.

SW- Sobre a orientação das autoridades que netos não visitem seus avós, é preciso ser rígido assim?

Sim, é preciso ser radical. Os avós são muito mais vulneráveis e os netos podem ser olgossintomáticos (que apresentam poucos sintomas). Essa é uma restrição importante para proteger os idosos, especialmente nesse momento da transmissão comunitária. Essa é a fase de maior disseminação da doença e é possível que o governo aumente as medidas restritivas, que têm se mostrado bastante eficazes. Há dois lugares para onde idosos devem ir: para suas casas e para consulta a seus médicos.

SW- Aqueles que tiveram doenças graves ficarão com sequelas?

É possível que algumas fiquem sim. Já existem estudos mostrando que existe deficiência da função pulmonar em pacientes que tiveram doenças graves. Identificamos, na prática, quando vemos a recuperação de pessoas que não faleceram, porém tiveram a pneumonia grave.

SW- É possível que no Brasil tenhamos o quadro da Itália, em que pacientes necessitem de respirador , de UTI, de ventilador e não termos equipamento para todos esses pacientes? Será que teremos que escolher quem vai para o ventilador e quem não vai?

Se a situação do Brasil for semelhante a da Itália, teremos esse quadro de forma mais dramática do que a Itália, porque nosso sistema de saúde é mais deficiente. Se chegarmos a esse ponto, não teremos ventilador para todos. E isso terá forte impacto sobre a mortalidade, provocando grande distúrbio psicossocial dentro do próprio ambiente dos servidores da saúde.

SW- Quando o senhor acha que estaremos livres dessa crise, da transmissão comunitária?

Estamos iniciando o ciclo da transmissão comunitária, se nossas medidas restritivas forem eficientes nós vamos promover o achatamento da curva e diminuir o número de casos. O que se espera é que em 3 ou 4 meses passemos para uma recuperação maior e, assim, tenhamos a normalidade do dia a dia. É necessário compreender como serão os próximos 20 dias no Brasil. Serão cruciais para o prognóstico do comportamento do vírus.

SW- Na sua opinião, medidas restritivas para isolamento social já deveriam ter sido tomadas anteriormente?

Os agentes de governo têm medo do que acontecerá com a economia. Já temos esse efeito no mundo e no Brasil não será diferente. Essas medidas restritivas já deveriam ter sido tomadas. Elas reduzem de forma significativa o número de casos importados.

SW- Algum dado concreto do risco do vírus com relação às grávidas?

Ainda não. Mas as grávidas devem tomar cuidados extremos e seguir rigorosamente as restrições. Não somente pela questão da pneumonia, mas pelo concepto, se há alguma transmissão vertical. Sem respostas, nesse momento, a melhor forma é prevenir.

Dr Paulo Feitosa (CRM DF 8388) Chefe da Unidade de Pneumologia do HRAN (hospital referência). www.facebook.com/paulo.feitosa.18














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